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‘O Rei Leão’ ganha versão com espécies da Amazônia

Se você parar rapidamente e pensar em cinco animais, quais vem à sua mente? Aposto que nesta sua lista não pode faltar leão, girafa ou elefante.

Você sabia que nenhum desses é do Brasil? Mas não se preocupe. É comum pensarmos nos ‘bichos do safári’, pois são eles que estão nos desenhos, filmes, livros e brinquedos.

Fã da animação ‘O Rei Leão’ – clássico da Disney que agora foi computadorizado e reexibido nos cinemas – o ilustrador e designer gráfico Vilmar Rossi Junior, de Santa Maria (RS), mal sabia que as ilustrações, feitas em homenagem ao longa metragem, virariam uma ferramenta importante na luta pela diversidade brasileira.

Em 18 de julho, junto à estreia do filme, o artista lançou nas redes sociais os primeiros desenhos da série “E se o Rei Leão se passasse na Amazônia?”.

“Inspirado pela chegada da nova versão do Rei Leão, que eu adoro tanto, e pelo gosto em misturar temas diferentes, decidi ilustrar algumas cenas do filme adaptadas à nossa fauna. O objetivo era apenas lúdico, mas agora me sinto na obrigação de dar mais sentido ao trabalho”, conta.

A série conta com dez releituras de cenas do filme, adaptadas para as características da fauna e flora brasileiras. “A ideia é deixar o mais parecido com a cena original, para criar mais impacto com as mudanças”, diz.

Os personagens, famosos na animação, ganharam substitutos. O javali ‘Pumba’, por exemplo, foi representado por um cateto. “Pesquisei bastante para achar opões de espécies, como representar o Zazu com um araçari-castanho, ao invés de optar pelos tucanos, evitando ser muito óbvio. Também quis me certificar que eram espécies bem típicas da região”, explica o designer, que contou com a colaboração de algumas pessoas para ajustar detalhes no personagem Rafiki, um mandril – primata parente dos babuínos, muito sábio e conhecedor de magia.

“Na primeira vez fiz um mico-leão-dourado, por ser típico da nossa fauna. Mas quando postei, me informaram que ele era mais encontrado em outras regiões. Então vi que teria que tomar mais cuidado”, lembra.

O substituto escolhido para o mico foi um uacari. Para evitar possíveis equívocos, o ilustrador consulta mapas de distribuição das espécies.

No elenco estão ainda uma irara, representante do suricato ‘Timão’, a onça-pintada, escolhida para substituir os leões da trama, e os cachorros-vinagre, espécie que desafiou Vilmar durante o processo criativo. “As hienas deram trabalho, porque não temos nenhum animal semelhante. Optei pelo cachorro-vinagre, pois apresenta comportamentos que se encaixam na substituição”, completa.

Escolher um dos biomas brasileiros também foi um desafio. “No começo tive dúvida se optava pelo Cerrado, por ser o bioma que mais se assemelha à savana. Mas me pareceu que a Amazônia possuía a imponência que a história de um rei merecia, e com todas as notícias preocupantes que vinham assombrando a região, me pareceu justo e necessário”, conta.

“Representar a Amazônia está sendo uma experiência criativa bem gratificante, um processo de treinamento bem divertido e uma oportunidade de, fazendo o que sei fazer, deixar meu protesto e minha denúncia sobre os horrores cometidos contra a Amazônia e os povos da floresta”, comenta Vilmar.

A necessidade de transformar os traços do desenho em sinais de alerta e a vontade de valorizar as florestas brasileiras surgiram logo nas primeiras publicações.

“Não fiz a versão com o objetivo específico de popularizar nossa fauna, mas, desde a universidade, vários dos meus trabalhos tentam trazer elementos da nossa cultura popular, regionalismos, estilos artísticos”, explica o ilustrador.

Ilustrações educativas

O que não passava de uma homenagem se transformou em um sonho: educar através dos desenhos. “Eu gostaria de transformar essas ilustrações em um livro, com dados, conteúdo sobre a região e sobre os animais, para distribuir nas escolas. Acho que, aí sim, a função educativa poderia se concretizar”, diz.

O desejo parte da necessidade em divulgar a fauna brasileira para as crianças, jovens e adultos. “Os animais dos safáris são lembrados com frequência por uma questão de poder cultural e de mídia”, comenta o artista, que se preocupa em mudar o cenário.

“Enquanto o mercado não faz a sua parte, a educação de casa e da escola precisa compensar isso apresentando às crianças a riqueza de fauna e flora que temos”, completa.

Traços que ‘falam’

As ilustrações digitais, feitas em um tablet, não seguem muitos padrões. No trabalho de Vilmar a regra é se comunicar através do desenho. “A essência dessas postagens não são trabalhos finalizados. O resultado que busco é muito mais a ideia da maneira que melhor comunique, do que uma excelência no traço ou pintura”, diz.

A preocupação em contar uma história esteve presente em todo o planejamento da série, que começou por uma das cenas mais populares: Hakuna Matata. “Nas primeiras ilustrações escolhi cenas que pudessem mostrar algum personagem novo e, assim, desenhar espécies brasileiras”, conta o ilustrador, que agora projeta os desenhos sob um olhar crítico.

“Estou escolhendo a que traz alguma situação interessante de adaptar. Nas últimas, falei sobre o desmatamento, mas ainda tem muita coisa para desenhar”, completa.

Série criativa

As 10 ilustrações estão disponibilizadas no perfil do Instagram de Vilmar, mas o designer já adianta: muitas outras cenas estão por vir.

“Quero ainda fazer cenas marcantes do filme e trazer mais da questão do desmatamento e violência à floresta”, finaliza.

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