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terça-feira, 27 outubro, 2026

Delegado jundiaiense investiga super fraude de remédios

Golpes, se não tivessem sido descobertos, poderiam ter dado prejuízo de 40 milhões de reais ao Estado

Há um procedimento até meio rotineiro em todo o país – o sujeito doente precisa de um remédio caro, que não pode comprar, e aciona a Justiça, que obriga o Estado ou a Prefeitura fornecer tal remédio. É um ato justo, não fosse a entrada de alguns espertinhos para aproveitar o procedimento e ganhar muito dinheiro.
Até agora essa história já deu prejuízo de quase dez milhões de reais. O delegado Fernando Bardi, da Divisão de Investigações de Crimes contra a Administração, é o responsável por investigar os golpistas. Para funcionar, o golpe tinha um médico que assinava laudos e um laboratório americano, cujo representante cuidava de tudo.
O laboratório é o Aegerion Pharmaceuticals; o remédio é o Juxtapid (lomitapida), que não existe no Brasil. Ele é indicado para tratamento de uma doença raríssima, a hipercolesterolemia familiar homozigótica, que segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) atinge uma em cada milhão de pessoas. O médico apontado como responsável pelos laudos é o cardiologista José Eduardo Guimarães, que conseguiu a proeza de ter 19 pacientes com essa doença em São José dos Campos, cidade de 680 mil habitantes.
Os pacientes com colesterol alto eram chamados ao consultório do cardiologista e apresentados ao representante do laboratório, que oferecia o remédio de graça. Todo mundo gostava, mas ninguém sabia que estava processando o Estado. O cardiologista é só um dos médicos envolvidos.
“Os médicos assinaram laudos falsos e a empresa encontrou uma forma de obrigar o Estado a importar um medicamento antes dele ser aprovado no Brasil”, diz o delegado Fernando Bardi. Qualquer droga só pode ser vendida no país ou propagandeada pelos laboratórios nos consultórios depois de aprovada pela Anvisa.
Nessa história há ainda uma associação, a Andora (Associação Nacional de Doenças Raras e Crônicas), com sede em Curitiba. Partia da Andora o telefonema avisando que o remédio havia chegado e que estava disponível em determinado posto de saúde.
O custo do Juxtapid é de assustar: mil dólares cada cápsula. Como paciente assim precisa de uma cápsula por dia, o governo estaria gastando 360 mil dólares (mais de um milhão de reais) com cada paciente por ano. E quem foi usado para processar o Estado também teve outros problemas. “Houve casos de náuseas, dores de cabeça e problemas hepáticos, e um dos pacientes sofreu paralisia temporária de um dos braços”, conta o delegado Fernando Bardi.
Como de praxe, todo mundo nega que tenha agido de má fé. O laboratório não afirma absolutamente nada; o cardiologista continua jurando que esse povo precisava tomar o remédio pois havia risco de morrer; o representante do laboratório conta uma historinha que não convence ninguém. E essa tal de Andora afirma ter feito tudo direitinho. E o delegado Bardi vai tocando o inquérito que pode mandar mais gente ainda para a cadeia.

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